sábado, 15 de dezembro de 2007

Um dia de aeroporto

O dia estava quente e o trânsito para chegar ao aeroporto estava intenso, um verdadeiro inferno. O táxi não tinha ar-condicionado e como o calor era insuportável, mantive os vidros abertos durante toda a viagem, o que me fez chegar totalmente descabelada ao aeroporto, parecendo uma louca. Na fila do check-in, precisei abrir a mala para incluir uma parte da bagagem de mão, ali, no chão mesmo. A fila estava enorme, ia e voltava como uma enorme cobra enrolada. Quando faltavam quinze minutos para a hora do embarque, já estava desesperada, então chamei um funcionário que me informou que o vôo estava atrasado. O avião ainda nem sequer pousara. De certa forma foi um alívio.

Quando chegou a minha vez, senti aquela euforia de finalmente ter chegado: uhuuu! pedi um lugar na janela mas só havia um assento do meio disponível. Mesmo com a confirmação do atraso, assim que consegui o cartão de embarque corri para a plataforma, só para garantir. Quando cheguei ao portão percebi que o meu vôo não era o único atrasado, pois havia muitas pessoas irritadas, que se espalhavam por todos os lados. Estava pior do que ponto final de ônibus urbano em centro de cidade na hora do rush. Os alto-falantes anunciavam os vôos e eu prestava atenção, sem conseguir entender muito bem a dicção metálica em meio àquele tumulto. Finalmente consegui distinguir uma informação de que devido ao reposicionamento das aeronaves, o embarque do meu vôo seria efetuado em outro portão. Logo todas as pessoas se dirigiram ao mesmo tempo para o portão, que era bem longe de onde estávamos. E desce escada-rolante...

Chegando lá, fomos informados de que o aeroporto de destino estava fechado devido a condições climáticas e que não havia previsão para a partida. Fazer o que, o jeito é esperar, esperar, esperar... em pé, pois não havia lugares suficientes para todos sentarem. O calor estava sufocante, o ar-condicionado não dava conta de tanta gente. Finalmente o vôo foi confirmado, mas em outro portão e todos correram como uma manada de búfalos desesperados para um portão ao lado do portão inicial. E sobe escada-rolante...

A fila do embarque estava impaciente, todos queriam entrar logo e eu fiquei esperando em uma cadeira (e que alívio encontrar uma, depois de quase três horas!). Não entendo essa mania que as pessoas têm de correr logo para a fila e ficar em pé esperando. Ainda demorou uns quinze minutos até abrirem o portão e as pessoas poderem entrar. Fui uma das últimas a entrar e meu lugar era um assento em meio a dois outros, que ainda não estavam ocupados.

Sentei e logo em seguida chegou um senhor, bastante opulento, pedindo licença para entrar e sentar-se próximo à janela. Precisei sair para ele poder entrar e logo ele ocupou seu assento. E sua enorme barriga ocupou uma parte do meu assento por baixo do braço da poltrona. Logo em seguida apareceu o ocupante da poltrona do corredor. Assim que ele se aproximou senti um cheiro estranho o que me fez supor que ele não devia tomar banho há pelo menos uma semana. Seu corpo exalava os mais diversos odores, desde o clássico suor axilar, mais conhecido como "cecê" até diversas nuances de aromas rançosos, da pele aos cabelos sebosos. Cada vez que ele se movia sua presença tornava-se marcante. Eu comera peixe no almoço e acho que tinha um pedaço meio passado. Eu sentia constantemente esse cheiro. Não sabia se vinha do meu estômago ou do meu vizinho. Aquilo era realmente uma falta de respeito com as outras pessoas. Como alguém podia feder tanto? Se fosse um mendigo, era até compreensível, mas dentro de uma avião? Era um absurdo. Pensei em usar a máscara de oxigênio, mas logo desisti da idéia ao imaginar a aeromoça me abordando e eu tendo que explicar o motivo.

Apesar do homem grande do outro lado ocupar quase todo o meu campo de visão, fingi estar olhando pela janela para manter o rosto virado para o lado oposto ao senhor fétido. Logo comecei a puxar conversa com ele, para poder manter o rosto virado. O cara era meio chato e falava cuspindo, mas ao tentar virar meu rosto senti novamente aquele bouquet e voltei a dar atenção ao gordinho simpático. Ele achou que eu estava paquerando e se espalhou ainda mais para o meu lado. Felizmente logo começou o serviço de bordo e ele passou a dedicar toda sua atenção à comida.

O lanche era constituído de um pão com umas coisinhas pretas que eu deduzi serem um disfarce para, caso algum inseto caísse na massa, nenhum consumidor perceber. Quando eu ia tomar o suco começou uma turbulência e eu derrubei tudo em mim, ficando totalmente molhada. Acho que vi também algumas caspas alheias voando em minha direção, mas é melhor não pensar nisso...

A turbulência ficou mais forte eu comecei a sentir medo. Nessas horas, sempre olho para a cara das aeromoças, se estiverem tranqüilas em seus afazeres, é sinal de que não é nada de mais. No caso elas estavam sentadas em seus banquinhos com uma expressão indecifrável. Estariam apavoradas? Comecei a ficar preocupada, mas logo o comandante anunciou que estávamos passando por uma área de instabilidade, mas que logo o avião se estabilizaria. Um passageiro vomitou no banco da frente e mais um odor foi adicionado ao ar em meu entorno. Precisei fechar os olhos e prender a respiração enquanto pensava, com toda a força da minha imaginação, em um jardim florido, com muitas rosas, jasmins, damas-da-noite...

Ouviu-se então novamente a voz solene do comandante: Atenção senhores passageiros, infelizmente temos más notícias... Nessa hora eu gelei. Agora já era, pensei. Fechei os olhos novamente e comecei a rezar. Uma senhora atrás de mim estava ofegante. Devido ao atraso do vôo, continuou o comandante, não pousaremos em uma das escalas. Ao mesmo tempo que fiquei aliviada, senti muita raiva do comandante. Isso não se faz, alguém podia ter tido um enfarte.

A situação estava ficando insuportável . Novo aviso do comandante: Senhores passageiros, informo que enquanto aguardamos a liberação do aeroporto de São Paulo daremos algumas voltas sobre Araraquara. E lá embaixo eu via a cidade de A-ra-ra-ra-qua-ra uma duas, três, quatro, cinco vezes.... até que iniciaram finalmente os procedimentos de descida. Assim que o avião parou, todos os passageiros se levantaram e ficaram em pé amontoados no corredor. Apenas uma pequena clareira se abria em torno do fedidão.

Quando a fila finalmente andou, desci e fui para a esteira esperar minha mala. As malas iam chegando e saindo, até que não havia mais ninguém e só umas três malas solitárias, rodando na esteira. E nada da minha mala. O senhor fedegoso aguardava do outro lado. Estou ferrada, minha mala não veio, pensei. Mas decidi esperar um pouco mais. Após quase meia-hora, veio um outro carrinho e lá estava a minha grande mala cor-de-rosa. Acabou, pensei. Finalmente acabou! E fui embora pra casa, muito feliz.

Um comentário:

Srta Laís disse...

Oi "velhinha ainda muito nova" huahuahauaaa...
Ficou massa o blog viu!

Mas que dia en! Fiquei imaginando vc usando a máscara de oxigênio dentro do avião e precisando explicaro pq! huahauaa, seria cômico!!

Muito boa percepção das coisinhas pretas que como possivel disfarce para possiveis insetos na massa. Minhas amigas leram comigo e estão enojadas por terem comido algo parecido num vôo!!! huahauaaaaa, ainda bem que evito essas coisinhas!

huahauaaaa

bju Cris!