terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O celular mau-caráter

Era um celular comum, desses baratinhos, sem opcionais nem frescuras, mas bastante eficiente. No primeiro ano funcionou perfeitamente, cumprindo sua função. Mas depois de algum tempo, começou a ficar estranho: Registrava números errados e muitas vezes tentava mandar os torpedos para destinatários diferentes dos escolhidos... Um perigo! Reclamei com a operadora, mas disseram que era defeito no aparelho. Só podia ser mesmo, então levei à assistência técnica.

Após um exame minucioso, o técnico concluiu que os sintomas eram devidos a uma pequena oxidação nos circuitos, causada pela entrada de umidade. Dado o diagnóstico, o tratamento consistia de uma simples limpeza e o aparelho voltou a funcionar normalmente. Ao menos foi o que pensei, por um tempo. Logo voltou a apresentar problemas de conduta, mas de forma tão dissimulada que era difícil perceber. Demorava para completar as chamadas, às vezes não tocava quando recebia uma ligação, atrasava os torpedos... Além disso tudo, muitas vezes simplesmente apagava. Levei-o então novamente à loja e o técnico procedeu a nova limpeza, desta vez mais minuciosa. Mas de nada adiantou, o aparelho foi ficando cada vez mais temperamental e parecia não querer cumprir a sua função. Talvez estivesse cansado de sua rotina monótona.

Certo dia percebi que ele não estava em minha mochila quando voltei da academia. Fui procurá-lo e não achei, nem tampouco alguém o havia encontrado. Liguei várias vezes para o número, até que no dia seguinte uma mulher atendeu. Disse que havia encontrado em sua bolsa, o danado. Deve ter saltado quando abri a mochila, atirando-se na primeir bolsa aberta que encontou. Recuperei o aparelho, mas ele parecia cada vez mais insatisfeito, após o fracasso da tosca tentativa de fuga. Poucos dias depois desse evento, demonstrou sua insatisfação de forma mais radical, através de uma tentativa de suicídio. Eu estava na casa de meu irmão e fui ao banheiro. O aparelho, que estava no bolso da calça, atirou-se no vaso sanitário. Consegui resgatá-lo rapidamente, mas ele já estava completamente apagado e eu tirei a bateria para evitar um curto-circuito.

Levei o moribundo para casa e o deixei descansar em local aquecido por dois dias, antes de acoplar novamente a bateria. Nada. Liguei ao carregador e à tomada, mas ele não se manifestava. Era um doente terminal, atrelado à sua máquina de UTI. Ficou assim o dia todo e não apresentou nenhum sinal de vida. Pensei em desligar tudo e dar adeus ao aparelho, mas como sempre resta uma esperança, ainda tentei ligar e deligar o fio da tomada algumas vezes. Numa dessas, ele voltou a funcionar. Estava vivo!

Durante algum tempo ficou bonzinho. Talvez tenha se arrependido, ou talvez por ter estado tão próximo do fim agora conseguisse dar mais valor à vida. Assim eu pensava, mas logo o pequeno aparelho viria a revelar sua verdadeira índole. Foi em um assalto que se deu o grande desfecho. Os ladrões levaram tudo e o celular foi embora com eles. Rendeu-se ao mundo do crime. Nunca mais deu notícias, o ingrato.

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