sábado, 15 de dezembro de 2007

Os últimos dias de miopia

Eu fazia os exames necessários para me submeter à cirurgia para tratamento de miopia e astigmatismo, já às vésperas da data marcada, quando o médico me disse que a partir desse dia eu deveria ler somente de óculos até o momento da cirurgia (para quem não sabe, os míopes muitas vezes lêem melhor sem óculos). Aquela advertência surtiu um efeito inesperado, pois me dei conta de que estava dando adeus ao meu velho mundinho míope: Nunca mais veria o ambiente embaçado ao meu entorno. Isso pode soar estranho para quem sempre enxergou bem, mas como tudo na vida, uma deficiência visual também pode ter vantagens. Estar sem óculos ou lentes de contato sempre me proporcionou um estado de introspecção inigualável. Graças aos meus quase oito graus de miopia e mais dois de astigmatismo, às vezes eu podia me sentir absolutamente indiferente a tudo o que se passava ao meu redor. Como já bem cantou Herbert Vianna, "mas se estou triste eu tiro os óculos e não vejo ninguém". Sem a ajuda de lentes, quase nada podia ver e muito pouco podia ouvir, já que os míopes também não ouvem bem quando tiram os óculos. Desta forma, nada podia me afetar e eu me tornava invulnerável, como aqueles súper-heróis de histórias em quadrinhos que têm um escudo energético protetor. E como não podia perceber de forma clara o mundo externo, entrava profundamente em contato com meu mundinho interior.
No fim-de-semana anterior fui passear na praia sem poder mais usar minhas queridas lentes de contato, que para mim eram até então a grande invenção do século XX. Decidi tirar um pouco os óculos horrorosos, que me incomodavam muito. Olhei então para a frente e levei um grande susto, pois me dei conta de que podia enxergar melhor do que esperava. Podia ver os contornos da paisagem ao longe sem muita nitidez, mas via claramente as guias das calçadas em zigue-zague, a ponto de notar que haviam sido pintadas recentemente e perceber os respingos de tinta e borrões do serviço mal feito. Foi então que me dei conta de que podia andar sem os óculos, pois a minha visão era suficiente. Achei muito estranha aquela sensação de poder enxergar. Passei então a prestar atenção na paisagem, para tentar guardar a lembrança de um jeito de enxergar que foi uma característica marcante em minha vida, durante mais de trinta anos: As paisagens borradas, as pessoas sem face, panos que se confundiam com gatos no sofá. À noite, luzes que se pareciam com bolas de Natal, emitindo raios pontudos e misturando-se umas às outras. Essas são impressões que só um míope conhece.
Pouco antes da cirurgia, enquanto as enfermeiras pingavam colírio em meus olhos e já sem os óculos, conversava com uma moça que faria a cirurgia em seguida. Estávamos com medo, desejando que tudo aquilo acabasse logo. Foi tudo muito rápido, mas aflitivo e após a cirurgia já podia ver nitidamente o rosto do médico, sorrindo e dizendo que deu tudo certo. Agradeci a ele e fui embora com minha prima, que me acompanhava. Os olhos ardiam e lacrimejavam, mas a sensação não era mais incômoda que a da conjuntivite que tivera um ano antes. À noite os olhos já não ardiam quase nada e eu estava enxergando melhor do que podia enxergar antes com lentes de contato. No dia seguinte voltei ao consultório – dirigindo! – para uma consulta pós-cirurgia. Enquanto aguardava, conversava com as outras pessoas que estavam na sala de espera, comentando que fizera a cirurgia no dia anterior. Então, uma moça perguntou se não era eu que estava conversando com ela antes da cirurgia. Eu disse que sim, mas que não tinha visto seu rosto. Ela riu e disse que também não vira o meu. Esta é a última lembrança do meu mundinho míope.
Mas o que eu não podia imaginar é que a cirurgia me proporcionaria um novo tipo de viagem. Reaprender a ver tornou-se uma aventura e estou entrando em contato com um novo mundo. Tudo parece muito diferente e é muito divertido olhar as coisas: Perto, longe, meio do caminho, coisas sobrepostas. Esse tipo de experiência nos põe em contato com as coisas simples e boas da vida, como a alegria de olhar. Estranho foi quando olhei meu rosto no espelho e me achei envelhecida. Então percebi que nunca havia visto meu rosto com nitidez. Até a minha imagem refletida no fundo da caneca de café me pareceu algo surpreendente e divertido. Agora, vejo tudo de um jeito absolutamente novo e inesperado. Acho que até rejuvenesci, pois meus olhos adquiriram o brilho dos olhos de uma criança, a descobrir um mundo novo.

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