sábado, 15 de dezembro de 2007

Fake it easy

Após uma entrevista sobre o estresse das modelos, a repórter me perguntou se eu queria ficar para o concurso que aconteceria logo mais ali, no super moderno Hotel Unique, talvez esperando que eu não aceitasse, mas eu aceitei. Ela então conseguiu um crachá com a assessora de imprensa do evento, com a condição de que ninguém soubesse que eu era psicóloga e fui ficando por lá, só observando. No início achei que minhas roupas estariam inadequadas para tal evento, mas logo percebi que ali qualquer tipo de roupa estaria adequada, pois somente quem ficava na frente das câmaras se preocupava com o visual, o pessoal de imprensa parecia se preocupar mais em usar sapatos confortáveis. Mas a assessora achou que eu estava chamando atenção por estar muito deslocada e como era difícil eu me enturmar, ela achou melhor que eu a seguisse e me apresentava a todos como sua assistente. A brincadeira começou a ficar divertida. Ficamos andando entre os camarins e a entrada dos repórteres e eu fiquei cara-a-cara com algumas celebridades, como a lendária Kate Ford e a super-modelo Mariana Weickert, em plena sessão de maquiagem.
Os repórteres estavam tendo dificuldades para entrar no evento. Foi então que minha anfitriã descobriu um ótimo jeito de se livrar de minha presença, mandou-me ficar na recepção para receber os repórteres. A essa altura, as pessoas já me paravam para pedir orientações e eu logo desenvolvi uma série de respostas evasivas. Estava completamente perdida, mas isso não tinha muita importância, afinal ninguém parecia saber muito bem o que estava fazendo mesmo. Logo percebi que o que contava ali era o que a pessoa aparentava ser, não o que efetivamente fazia ou dizia.
Basicamente, os participantes do evento dividiam-se em cinco tribos distintos: meninas-modelos pálidas e esquálidas em trajes sumários, meninos-modelos musculosos, em roupas fashion, pessoal de imprensa em trajes bastante gastos e nem um pouco elegantes, o povo da moda com visuais alternativos e alguns convidados bem cafonas, provavelmente familiares das modelos. Após uma certa hora, ainda apareceram algumas drag-queens vestidas a caráter.
Fui para a recepção e me apresentei como a assistente responsável por encaminhar o pessoal da imprensa. Nessa hora, comecei a me sentir como se estivesse participando daquele programa chamado "fake it", em que uma pessoa é treinada para se fazer passar por alguém com uma profissão totalmente diferente da sua. Logo me enturmei com os outros recepcionistas, duas moças e um rapaz e percebi que ali era muito fácil ser uma impostora. Na recepção me senti poderosa, afinal estava em uma posição que me permitia trazer as pessoas para dentro e todos queriam entrar no camarim, ao qual eu tinha livre acesso; até os seguranças já me conheciam. Tudo ali era mesmo muito fake e eu não era mais fake do que qualquer outro.
Fiquei impressionada em como as meninas conseguiam manter sua cara de nada, mesmo após terem sido chamadas como finalistas. Também me impressionou a magreza das meninas e perceber como as mais saudáveis realmente pareciam gordas na passarela. Todas pareciam adultas durante o desfile. Nos camarins as meninas ficavam sempre muito próximas, em duplas, trios, quartetos e sentavam-se umas nos colos das outras, demonstrando toda sua carência afetiva de crianças que são. E me chamou atenção a pouca vibração da platéia, que não torcia e aplaudiu pouco os vencedores. Bem no meio do desfile dei uma escapada para tirar uma foto em um celular, com chapéu colorido e boá, que me seria enviada posteriormente.
Em um mundo onde o que vale é a aparência, não importa muito quem você é ou o que você sabe, mas o que parece ser. Nosso mundo tem mesmo muitas dimensões, e essa não é definitivamente a minha. À meia-noite, o prazo da minha fantasia parecia ter se esgotado, como na história da Cinderela. Eu estava cansada de ficar andando pra cá e pra lá de salto alto com aquela bolsa pesada e decidi então que era hora de voltar para casa, apesar da festa estar bombando e de ainda serem aguardados muitos convidados famosos.
Voltei para minha vidinha real, peguei um táxi e fui para casa, onde afetuosamente recebida pelos meus quatro gatos, que estavam com muitas saudades, pois já não me viam há três dias.O resultado de tudo isso é que me diverti muito e a conclusão que chego cada vez que me envolvo em uma situação como essa é a de que não devemos deixar passar as oportunidades que a vida nos oferece, por mais bobas que possam parecer.

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