O pequeno cão já estava cego e surdo e andava todo encurvado. Era muito velho, devia Ter uns 15 anos, o que é muito para um cão. Acho que se fosse uma pessoa teria mais de 100 anos. Já estava assim há algum tempo, e todos as noites achávamos que não acordaria no dia seguinte. Pensamos em sacrificá-lo, mas achamos mais justo deixá-lo viver enquanto não sentisse dor. A cada dia sua situação piorava mas ele resistia bravamente.
Todas as noites eu ia lá me despedir, fazia um carinho forte em seu pescoço, que ele recebia calmamente. Devia sentir-se muito amado e protegido pois reagia bem aos carinhos. Nunca se assustava quando era tocado, muitas vezes era necessário carregá-lo pois já não conseguia encontrar sua caixa para dormir.
Enquanto jovem, foi um cachorro muito ativo sexualmente. Sempre que havia alguma cadela no cio, não havia obstáculos que o detivessem. Pulava muros com mais de dois metros de altura, subia no telhado, cavava buracos, o que fosse necessário para atingir seu objetivo. E quantas vezes atingiu! Nem a concorrência de cães maiores o intimidava. Apesar de ser bem pequeno, enfrentava a todos, que recuavam apenas com suas ameças. Definitivamente, sabia se impor.
Parecia sempre contente e até sorria para nós. Sim, sorria de verdade, levantando seus "lábios" e mostrando os dentes da frente de forma amistosa, não ameaçadora. Corria pelo grande quintal da casa e às vezes subia no muro da frente, apenas por diversão. Meu pai tentou várias descobrir como ele conseguia subir em um muro de dois metros, pôs baldes e panelas empilhados nos diversos acessos possíveis, mas o cachorrinho subia no muro sem derrubá-los.
E agora, estava nessa situação. Olhava para ele e tentava entender o que sentia. Parecia sereno, a meu entender, não demonstrava angústia por não conseguir enxergar nem ouvir. Será que ele tinha consciência do que estava acontecendo? Será que sabia que seu fim estava próximo?
Um dia simplesmente parou de comer e nem bebia mais água. Simplesmente se recusava a ingerir qualquer alimento. E assim foi definhando, quietinho em seu caixote. Às vezes levantava para caminhar um pouco mas logo voltava dormir novamente. A cada noite pensávamos que não acordaria mais, mas um dia começou a comer de novo e recuperou-se de forma surpreendente. Claro que não enxerga nem ouve, mas voltou a andar. E até hoje permanece assim, apesar do tempo. Talvez um dia decida finalmente morrer e não acorde mais.
sábado, 15 de dezembro de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário