O seu olhar sempre distante
Me deixa assim desconcertada
Ao encontrar por um instante
Em meu olhar frágil pousada
Esse olhar vazio profundo
Nesse segundo não disse nada
Só sei dizer sobre seu mundo
Que o seu olhar é uma cilada
Mas o olhar sem sentimento
Traiu-se então numa piscada
Deixando ver nesse momento
Que por você vou sendo amada
domingo, 8 de junho de 2008
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
ESSE ANO
Esse ano eu quero um amor de verdade
Alguém que possa merecer
O que eu tenho a oferecer
Alguém que eu possa admirar
Que me admire também
E que me conquiste devagar
Não parece tão complicado
Esse ano eu quero um amor de verdade
Cansei de amores cansados
Dos encontros desencontrados
Dos beijos desperdiçados
Da vidá fútil
Da espera inútil
Do tempo perdido
Do coração partido
Esse ano eu quero um amor de verdade
As inscrições estão abertas
Caso esteja interessado
Mas tome cuidado
Não é para qualquer um
E se não houver ninguém assim
Que o amor seja mesmo por mim
Alguém que possa merecer
O que eu tenho a oferecer
Alguém que eu possa admirar
Que me admire também
E que me conquiste devagar
Não parece tão complicado
Esse ano eu quero um amor de verdade
Cansei de amores cansados
Dos encontros desencontrados
Dos beijos desperdiçados
Da vidá fútil
Da espera inútil
Do tempo perdido
Do coração partido
Esse ano eu quero um amor de verdade
As inscrições estão abertas
Caso esteja interessado
Mas tome cuidado
Não é para qualquer um
E se não houver ninguém assim
Que o amor seja mesmo por mim
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
A ALMA DO TEMPO
O tempo é um vento
Que me arrasta por caminhos
Que temo por desconhecer
Me ensina a arriscar
E obriga a envelhecer
Em meu corpo flui sutil
Como a corrente de um rio
Sem jamais poder voltar
Já para a alma o tempo
Em eterno movimento
Vem em ondas como o mar
Vai e volta, sobe e desce
No entanto permanece
Sempre no mesmo lugar
Quisera eu parar o tempo
E viver a eternidade
Num momento de prazer
Pudera eu compartilhar
Esse infinito instante
Com outro ser
Que me arrasta por caminhos
Que temo por desconhecer
Me ensina a arriscar
E obriga a envelhecer
Em meu corpo flui sutil
Como a corrente de um rio
Sem jamais poder voltar
Já para a alma o tempo
Em eterno movimento
Vem em ondas como o mar
Vai e volta, sobe e desce
No entanto permanece
Sempre no mesmo lugar
Quisera eu parar o tempo
E viver a eternidade
Num momento de prazer
Pudera eu compartilhar
Esse infinito instante
Com outro ser
O homem que se perdeu no tempo
Era uma vez um homem que trabalhava muito. Passava o dia inteiro correndo de lá pra cá, fazendo muitas coisas; mais até do que parecia possível para outras pessoas. Cada vez dormia menos, porque seus afazeres ocupavam-no de manhãzinha, antes do sol nascer, até tarde da noite, entrando na madrugada do dia seguinte. Ele sempre achava mais coisas para fazer e cada vez precisava encontrar mais tempo para fazer essas coisas. E eram tantas as coisas, que ele não tinha tempo nem para pensar antes de fazer. Até que um dia, de tão cansada, sua alma não conseguiu acordar de manhã e o corpo saiu para trabalhar sozinho.
Ao acordar assustada, com o sol já bem alto, a alma sentiu-se estranhamente leve e logo percebeu que o corpo não estava com ela. "Onde estará meu corpo?", pensou. Eu aqui, dormindo, e há tantas coisas para fazer! Saiu imediatamente e logo encontrou o corpo executando as tarefas habituais. Para sua surpresa o corpo cumprira corretamente os compromissos da manhã. Fazia tudo automaticamente, como sempre fizera, de forma que ninguém notou a ausência da alma.
Estando fora do corpo, a alma pôde contemplar o dia-a-dia de sua vida e aquilo pareceu-lhe muito chato e sem sentido. Todos os dias trabalhando sem parar, só cumprindo obrigações, sem nenhuma diversão. Também descobriu que podia viajar rapidamente, por todos os lugares e percebeu que ali estava uma grande chance de se libertar. Podia deixar o corpo trabalhando enquanto viajava. Primeiro viajou pelo mundo, viu uma infinidade de coisas fascinantes, tantas maravilhas que nem saberia contar. Mas achou meio sem-graça conhecer o mundo sem o corpo, pois não podia desfrutar dos prazeres físicos, além de não compartilhar a viagem com outras pessoas.
Voltou então para sua vida e decidiu viajar pelo tempo. Que experiência fascinante reviver tantas coisas boas do passado: O casamento, a linda casa que construiu, o nascimento de seu filho. Contemplou com alegria sua vida em família, indo e voltando várias vezes, para rever os melhores momentos. Mas sempre acabava chegando na fase de brigas que culminou em divórcio e a partir daí voltava novamente para tentar entender como isso acontecera. Por mais que desejasse, não podia mudar o triste desfecho.
Resolveu então voltar até os tempos distantes de sua juventude, quando ainda não havia as preocupações de uma vida adulta, mas apenas um imenso universo de possibilidades por vir. Chegou à época mais feliz, quando morou com seu irmão em um país estrangeiro. Porém, logo se deparou com a morte do irmão querido. Entendeu que essa alegria já não podia mais existir e sentiu-se muito só. Percebeu que por melhores que sejam as lembranças do passado, revivê-las é como ser espectador de um filme, em que não se pode interagir com os personagens, nem mudar o final.
Ao refletir sobre essas imagens, sentiu com tristeza que, mesmo quando estava com o corpo, há muito tempo já não participava plenamente de sua vida. Voltou ao presente e observou mais uma vez seu corpo executando as tarefas diárias. Fazia tudo automaticamente e, como não podia pensar, quando surgia algum problema apressava-se em apontar um culpado e seguia para outra tarefa. Percebeu que isso vinha acontecendo há algum tempo e que a ausência de alma não mudou muita coisa em sua vida.
Após essa constatação, a alma mergulhou em tristeza profunda e não suportando mais a visão angustiante de sua vida, fugiu para o futuro para tentar vislumbrar a possibilidade de uma vida diferente. Talvez uma viagem de férias com seu filho, ou um outro trabalho, já que o seu era tão exaustivo, ou ainda uma vida totalmente nova, esquecendo tudo e começando do zero, em outro país. Mas, ao tentar chegar no futuro, caiu em um imenso vazio e não conseguiu vislumbrar nada além da vida que tinha no presente. Entendeu então que a única saída era voltar para o corpo e tentar mudar sua vida atual.
Entretanto, ao voltar para seu corpo, teve dificuldade de assumir o controle. De tanto funcionar no automático, o corpo não obedecia mais ao seu comando, apenas conseguia fazer as coisas que sempre fizera. Desta forma, a alma passou a se alimentar das migalhas de sua antiga vida, uma vez que, nessa vida atual, quase tudo o que foi bom no passado se perdera. Já não era possível ser feliz da forma que conhecia e não sabia como ser feliz de outro jeito. Não era mais um homem completo, apenas uma alma angustiada, sentindo-se presa a um corpo que não lhe obedecia nem dava prazer.
Eis que um dia aconteceu algo inusitado: Conheceu uma bela mulher e apaixonou-se por ela. O corpo e a alma entraram em sintonia e ele tornou-se um homem inteiro novamente. Uma nova porta abriu-se em sua vida: Como ela não era parte do seu passado, tudo o que faziam juntos era novo e apontava para o futuro. Mas logo ele percebeu que, justamente por não fazer parte do seu passado, ela não se encaixava em sua vida anterior. Ele precisaria iniciar uma nova vida e pareceu-lhe muito trabalhoso ter de começar tudo de novo. Pensava todo o tempo na vida que perdera e a alma desconectou-se do corpo novamente.
Voltou então mais uma vez ao passado, para tentar recuperar seus sonhos e descobrir o momento em que perdeu as rédeas da sua vida. Ia e vinha, revivendo todos os momentos, mas não conseguia entender exatamente o que acontecera. Via apenas que tudo foi desmoronando aos poucos, em uma sucessão de acontecimentos dramáticos. Mais uma vez a alma ficou perdida nesse tempo sem futuro, vagando sem destino, contemplando sua existência sem sentido.
Um dia voltou ao presente e não encontrou o corpo em seu local de trabalho. Tudo ali estava diferente e estranho. Então chegou um homem de meia-idade, que lhe pareceu familiar, mas não conseguia identificar quem era. "Estou indo visitar o papai", disse o homem ao telefone, desligou e saiu. A sensação de familiaridade permanecia e a alma resolveu segui-lo. Ele entrou em um hospital e a alma, estarrecida, reconheceu seu corpo no leito. Estava velho, magro e enrugado. Deu-se conta então de que o homem era seu filho e que já haviam passado muitos anos desde que se separou do corpo. Durante todos esse anos não participara de sua vida. "Como eu não vi isso acontecer?", indagou.
Ao ver o filho segurar sua mão e afagar seus cabelos brancos com ternura, voltou imediatamente ao corpo para participar deste momento precioso. Sentiu o toque amoroso e olhou profundamente em seus olhos. Tentou dizer alguma coisa, mas estava difícil encontrar o ar. Então apertou a mão do filho com força e fechou os olhos suavemente.
Ao acordar assustada, com o sol já bem alto, a alma sentiu-se estranhamente leve e logo percebeu que o corpo não estava com ela. "Onde estará meu corpo?", pensou. Eu aqui, dormindo, e há tantas coisas para fazer! Saiu imediatamente e logo encontrou o corpo executando as tarefas habituais. Para sua surpresa o corpo cumprira corretamente os compromissos da manhã. Fazia tudo automaticamente, como sempre fizera, de forma que ninguém notou a ausência da alma.
Estando fora do corpo, a alma pôde contemplar o dia-a-dia de sua vida e aquilo pareceu-lhe muito chato e sem sentido. Todos os dias trabalhando sem parar, só cumprindo obrigações, sem nenhuma diversão. Também descobriu que podia viajar rapidamente, por todos os lugares e percebeu que ali estava uma grande chance de se libertar. Podia deixar o corpo trabalhando enquanto viajava. Primeiro viajou pelo mundo, viu uma infinidade de coisas fascinantes, tantas maravilhas que nem saberia contar. Mas achou meio sem-graça conhecer o mundo sem o corpo, pois não podia desfrutar dos prazeres físicos, além de não compartilhar a viagem com outras pessoas.
Voltou então para sua vida e decidiu viajar pelo tempo. Que experiência fascinante reviver tantas coisas boas do passado: O casamento, a linda casa que construiu, o nascimento de seu filho. Contemplou com alegria sua vida em família, indo e voltando várias vezes, para rever os melhores momentos. Mas sempre acabava chegando na fase de brigas que culminou em divórcio e a partir daí voltava novamente para tentar entender como isso acontecera. Por mais que desejasse, não podia mudar o triste desfecho.
Resolveu então voltar até os tempos distantes de sua juventude, quando ainda não havia as preocupações de uma vida adulta, mas apenas um imenso universo de possibilidades por vir. Chegou à época mais feliz, quando morou com seu irmão em um país estrangeiro. Porém, logo se deparou com a morte do irmão querido. Entendeu que essa alegria já não podia mais existir e sentiu-se muito só. Percebeu que por melhores que sejam as lembranças do passado, revivê-las é como ser espectador de um filme, em que não se pode interagir com os personagens, nem mudar o final.
Ao refletir sobre essas imagens, sentiu com tristeza que, mesmo quando estava com o corpo, há muito tempo já não participava plenamente de sua vida. Voltou ao presente e observou mais uma vez seu corpo executando as tarefas diárias. Fazia tudo automaticamente e, como não podia pensar, quando surgia algum problema apressava-se em apontar um culpado e seguia para outra tarefa. Percebeu que isso vinha acontecendo há algum tempo e que a ausência de alma não mudou muita coisa em sua vida.
Após essa constatação, a alma mergulhou em tristeza profunda e não suportando mais a visão angustiante de sua vida, fugiu para o futuro para tentar vislumbrar a possibilidade de uma vida diferente. Talvez uma viagem de férias com seu filho, ou um outro trabalho, já que o seu era tão exaustivo, ou ainda uma vida totalmente nova, esquecendo tudo e começando do zero, em outro país. Mas, ao tentar chegar no futuro, caiu em um imenso vazio e não conseguiu vislumbrar nada além da vida que tinha no presente. Entendeu então que a única saída era voltar para o corpo e tentar mudar sua vida atual.
Entretanto, ao voltar para seu corpo, teve dificuldade de assumir o controle. De tanto funcionar no automático, o corpo não obedecia mais ao seu comando, apenas conseguia fazer as coisas que sempre fizera. Desta forma, a alma passou a se alimentar das migalhas de sua antiga vida, uma vez que, nessa vida atual, quase tudo o que foi bom no passado se perdera. Já não era possível ser feliz da forma que conhecia e não sabia como ser feliz de outro jeito. Não era mais um homem completo, apenas uma alma angustiada, sentindo-se presa a um corpo que não lhe obedecia nem dava prazer.
Eis que um dia aconteceu algo inusitado: Conheceu uma bela mulher e apaixonou-se por ela. O corpo e a alma entraram em sintonia e ele tornou-se um homem inteiro novamente. Uma nova porta abriu-se em sua vida: Como ela não era parte do seu passado, tudo o que faziam juntos era novo e apontava para o futuro. Mas logo ele percebeu que, justamente por não fazer parte do seu passado, ela não se encaixava em sua vida anterior. Ele precisaria iniciar uma nova vida e pareceu-lhe muito trabalhoso ter de começar tudo de novo. Pensava todo o tempo na vida que perdera e a alma desconectou-se do corpo novamente.
Voltou então mais uma vez ao passado, para tentar recuperar seus sonhos e descobrir o momento em que perdeu as rédeas da sua vida. Ia e vinha, revivendo todos os momentos, mas não conseguia entender exatamente o que acontecera. Via apenas que tudo foi desmoronando aos poucos, em uma sucessão de acontecimentos dramáticos. Mais uma vez a alma ficou perdida nesse tempo sem futuro, vagando sem destino, contemplando sua existência sem sentido.
Um dia voltou ao presente e não encontrou o corpo em seu local de trabalho. Tudo ali estava diferente e estranho. Então chegou um homem de meia-idade, que lhe pareceu familiar, mas não conseguia identificar quem era. "Estou indo visitar o papai", disse o homem ao telefone, desligou e saiu. A sensação de familiaridade permanecia e a alma resolveu segui-lo. Ele entrou em um hospital e a alma, estarrecida, reconheceu seu corpo no leito. Estava velho, magro e enrugado. Deu-se conta então de que o homem era seu filho e que já haviam passado muitos anos desde que se separou do corpo. Durante todos esse anos não participara de sua vida. "Como eu não vi isso acontecer?", indagou.
Ao ver o filho segurar sua mão e afagar seus cabelos brancos com ternura, voltou imediatamente ao corpo para participar deste momento precioso. Sentiu o toque amoroso e olhou profundamente em seus olhos. Tentou dizer alguma coisa, mas estava difícil encontrar o ar. Então apertou a mão do filho com força e fechou os olhos suavemente.
SAUDADE
Na essência da sua presença
Há o que chamam de amor
Meu coração se acalma
Em seu peito acolhedor
Na presença da sua ausência
Sinto feliz essa dor
Um vazio invade a calma
No silêncio ensurdecedor
Na ausência da sua essência
Meu coração se calou
Você tocou minha alma
E eu já não sei mais quem sou
Há o que chamam de amor
Meu coração se acalma
Em seu peito acolhedor
Na presença da sua ausência
Sinto feliz essa dor
Um vazio invade a calma
No silêncio ensurdecedor
Na ausência da sua essência
Meu coração se calou
Você tocou minha alma
E eu já não sei mais quem sou
ROMANCE EM 3ª PESSOA
Eu te encontrarei
Tu me amarás
Ela te procurará
Nós nos desentenderemos
Vós vos reconciliareis
Eles me consolarão
Tu me amarás
Ela te procurará
Nós nos desentenderemos
Vós vos reconciliareis
Eles me consolarão
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
O celular mau-caráter
Era um celular comum, desses baratinhos, sem opcionais nem frescuras, mas bastante eficiente. No primeiro ano funcionou perfeitamente, cumprindo sua função. Mas depois de algum tempo, começou a ficar estranho: Registrava números errados e muitas vezes tentava mandar os torpedos para destinatários diferentes dos escolhidos... Um perigo! Reclamei com a operadora, mas disseram que era defeito no aparelho. Só podia ser mesmo, então levei à assistência técnica.
Após um exame minucioso, o técnico concluiu que os sintomas eram devidos a uma pequena oxidação nos circuitos, causada pela entrada de umidade. Dado o diagnóstico, o tratamento consistia de uma simples limpeza e o aparelho voltou a funcionar normalmente. Ao menos foi o que pensei, por um tempo. Logo voltou a apresentar problemas de conduta, mas de forma tão dissimulada que era difícil perceber. Demorava para completar as chamadas, às vezes não tocava quando recebia uma ligação, atrasava os torpedos... Além disso tudo, muitas vezes simplesmente apagava. Levei-o então novamente à loja e o técnico procedeu a nova limpeza, desta vez mais minuciosa. Mas de nada adiantou, o aparelho foi ficando cada vez mais temperamental e parecia não querer cumprir a sua função. Talvez estivesse cansado de sua rotina monótona.
Certo dia percebi que ele não estava em minha mochila quando voltei da academia. Fui procurá-lo e não achei, nem tampouco alguém o havia encontrado. Liguei várias vezes para o número, até que no dia seguinte uma mulher atendeu. Disse que havia encontrado em sua bolsa, o danado. Deve ter saltado quando abri a mochila, atirando-se na primeir bolsa aberta que encontou. Recuperei o aparelho, mas ele parecia cada vez mais insatisfeito, após o fracasso da tosca tentativa de fuga. Poucos dias depois desse evento, demonstrou sua insatisfação de forma mais radical, através de uma tentativa de suicídio. Eu estava na casa de meu irmão e fui ao banheiro. O aparelho, que estava no bolso da calça, atirou-se no vaso sanitário. Consegui resgatá-lo rapidamente, mas ele já estava completamente apagado e eu tirei a bateria para evitar um curto-circuito.
Levei o moribundo para casa e o deixei descansar em local aquecido por dois dias, antes de acoplar novamente a bateria. Nada. Liguei ao carregador e à tomada, mas ele não se manifestava. Era um doente terminal, atrelado à sua máquina de UTI. Ficou assim o dia todo e não apresentou nenhum sinal de vida. Pensei em desligar tudo e dar adeus ao aparelho, mas como sempre resta uma esperança, ainda tentei ligar e deligar o fio da tomada algumas vezes. Numa dessas, ele voltou a funcionar. Estava vivo!
Durante algum tempo ficou bonzinho. Talvez tenha se arrependido, ou talvez por ter estado tão próximo do fim agora conseguisse dar mais valor à vida. Assim eu pensava, mas logo o pequeno aparelho viria a revelar sua verdadeira índole. Foi em um assalto que se deu o grande desfecho. Os ladrões levaram tudo e o celular foi embora com eles. Rendeu-se ao mundo do crime. Nunca mais deu notícias, o ingrato.
Após um exame minucioso, o técnico concluiu que os sintomas eram devidos a uma pequena oxidação nos circuitos, causada pela entrada de umidade. Dado o diagnóstico, o tratamento consistia de uma simples limpeza e o aparelho voltou a funcionar normalmente. Ao menos foi o que pensei, por um tempo. Logo voltou a apresentar problemas de conduta, mas de forma tão dissimulada que era difícil perceber. Demorava para completar as chamadas, às vezes não tocava quando recebia uma ligação, atrasava os torpedos... Além disso tudo, muitas vezes simplesmente apagava. Levei-o então novamente à loja e o técnico procedeu a nova limpeza, desta vez mais minuciosa. Mas de nada adiantou, o aparelho foi ficando cada vez mais temperamental e parecia não querer cumprir a sua função. Talvez estivesse cansado de sua rotina monótona.
Certo dia percebi que ele não estava em minha mochila quando voltei da academia. Fui procurá-lo e não achei, nem tampouco alguém o havia encontrado. Liguei várias vezes para o número, até que no dia seguinte uma mulher atendeu. Disse que havia encontrado em sua bolsa, o danado. Deve ter saltado quando abri a mochila, atirando-se na primeir bolsa aberta que encontou. Recuperei o aparelho, mas ele parecia cada vez mais insatisfeito, após o fracasso da tosca tentativa de fuga. Poucos dias depois desse evento, demonstrou sua insatisfação de forma mais radical, através de uma tentativa de suicídio. Eu estava na casa de meu irmão e fui ao banheiro. O aparelho, que estava no bolso da calça, atirou-se no vaso sanitário. Consegui resgatá-lo rapidamente, mas ele já estava completamente apagado e eu tirei a bateria para evitar um curto-circuito.
Levei o moribundo para casa e o deixei descansar em local aquecido por dois dias, antes de acoplar novamente a bateria. Nada. Liguei ao carregador e à tomada, mas ele não se manifestava. Era um doente terminal, atrelado à sua máquina de UTI. Ficou assim o dia todo e não apresentou nenhum sinal de vida. Pensei em desligar tudo e dar adeus ao aparelho, mas como sempre resta uma esperança, ainda tentei ligar e deligar o fio da tomada algumas vezes. Numa dessas, ele voltou a funcionar. Estava vivo!
Durante algum tempo ficou bonzinho. Talvez tenha se arrependido, ou talvez por ter estado tão próximo do fim agora conseguisse dar mais valor à vida. Assim eu pensava, mas logo o pequeno aparelho viria a revelar sua verdadeira índole. Foi em um assalto que se deu o grande desfecho. Os ladrões levaram tudo e o celular foi embora com eles. Rendeu-se ao mundo do crime. Nunca mais deu notícias, o ingrato.
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